sábado, 25 de julho de 2015

O dia em que estivemos no Cine Rio Branco



         Passando em frente ao prédio do antigo Cine Rio Branco, em Varginha-MG, resolvo tirar uma foto [a que ilustra este texto] e me vêm uma ideia à cabeça...Por que não compartilhar com meus leitores do Blog o texto que fiz para o Jornal Planeta Legionis em novembro de 2006? A matéria tem quase uma década, mas ao relê-la, percebi que merece ser divulgada... Na época, eu ainda nem havia entrado na faculdade, mas já gostava de escrever...

         A edição impressa é o único arquivo desse momento, já que eu não tinha câmera digital e muito menos celular com câmera para registrar. Na ocasião, entrevistamos o saudoso Sr. Fernando Prince [falecido em 2014]. Após a publicação da matéria,  recebi o primeiro grande incentivo de minha carreira. Ao me encontrar na rua, Prince comentou comigo que aquela foi a melhor matéria que haviam feito sobre o Cine Rio Branco até então...jamais me esqueci daquele dia....Vale ressaltar que estou postando o texto original, sem alterações, somente a título de curiosidade, com o relato da época. Não tenho informações concretas sobre a atual situação do imóvel. Leia do começo ao fim...

        Bilhete Premiado 

        Foram semanas de preparação, investigação, pesquisas e negociações para chegarmos ao nome certo e agendarmos a entrevista. Tiramos a sorte grande pois, o Papo Cabeça seria desenvolvido no local onde exatamente tudo aconteceu; para que o encanto e a magia de lá, descrito exaustivamente pelos seus admiradores, nos inspirasse e contagiasse...

       No horário combinado, o Sr. Fernando chegou, nos cumprimentou, pegou as chaves e abriu. Ficamos sem reação. O sonho se tornou realidade! Antes de entrarmos, demos uma olhada na rua, alguns curiosos xeretavam por ali. Sem nos importar, abandonamos o mundo real e ingressamos no incrível universo do Cine Rio Branco...

       Revelando Segredos 

        O Hall de Entrada estava relativamente limpo e conservado [a limpeza é feita mensalmente]. Nas bombonieres há caixas de chocolates vazias e um calendário de 1998. Os painéis, onde ficavam os cartazes dos filmes, não anunciavam próximas atrações. Os sofás continuam convidativos, apesar da poeira. E a roleta, repousa ao lado da cabine da bilheteria...Começamos a sessão de perguntas, veja o resumo do que ouvimos..

       “No início da década de 50, Varginha contava com dois cinemas, o Cine Theatro Capitólio e o Cine Rex, ambos administrados pela empresa cinematográfica Prince de Souza. Os dois já não comportavam a população e nem ofereciam conforto suficiente. Dessa forma, em 1954, iniciamos a construção do Cine Rio Branco, projetado pelo Engenheiro José Braga Jordão, com capacidade para 1400 pessoas, sendo 950 no andar de baixo e 450 no de cima. 

       Ele custou cerca de 13 milhões de cruzeiros, foi inaugurado no dia 11 de agosto de 1956 e teve como estreia o filme 'Rapsódia', estrelado por Elizabeth Taylor. Foi fundado pelo meu irmão, Aristides Prince de Souza. Eu era menino, tenho vagas lembranças deste dia”, afirmou. Tentamos continuar o bate papo ao atravessarmos as cortinas, porém, a enorme tela roubou toda a cena. 

       Arrasa-Quarteirão 

        A fama de ter uma das maiores telas do mundo não é enganosa. A lendária cortina “mágica”, zela pelos seus 9 metros de altura por 18 metros de comprimento. É simplesmente, ou melhor, luxuosamente fascinante. Emoldurados nas paredes, os vasos de flores permanecem apagados e sem vida, que juntamente com as incontáveis poltronas frias e a textura da parede em tons de rosa suave realçam a melancolia do ambiente. Mas este cinema já teve sua época de glória e o Sr. Fernando a descreveu pra gente...

       “Desde a inauguração até o alvorecer dos anos 80, isso aqui lotava diariamente. Havia a sessão das 18h20min, das 20h40min e aos domingos matinês às 14h30min. Alugávamos os filmes das distribuidoras e eles eram exibidos durante sete dias. Os grandes sucessos ficavam quatro semanas em cartaz. Estão na lista dos arrasa-quarteirão: ‘Ben Hur’, ‘O Rei Leão’, ‘O Manto Sagrado’, ‘Titanic’, ‘Dança com Lobos’ e ‘Os Dez Mandamentos’. Os longa-metragens tinham intervalo. Os jovens aproveitavam esse momento para flertar. O primeiro beijo de muita gente foi no escurinho do Cine Rio Branco e vários casais se conheceram aqui. 

      Do Cinema Nacional, podemos citar ‘Os Trapalhões’ e ‘Xuxa’, que sempre garantiam bom público. No entanto, nenhum deles se compara ao fenômeno ‘Mazzaropi’. O fluxo de gente era enorme. Famílias inteiras vinham para assisti-lo, algumas moravam há mais de 10 km de distância, era como se fosse um ritual. Quando Mazzaropi aparecia em cena e começava a andar daquele jeito engraçado, a plateia ia ao delírio. Temos de homenageá-lo, pois ele nunca pediu dinheiro ao governo para financiar suas produções. Entre os recordes estão ‘Jeca Macumbeiro’, ‘O Corinthiano’ e ‘Tristeza do Jeca’”, enfatizou. Aproveitando a breve pausa, pedimos para conhecer o andar superior. E lá fomos nós, subindo as escadas... 

       Sala de Projeção 

       No meio da escada, encontramos uma espécie de “gaiola gigante”. Rapidamente descobrimos que se tratava do Exaustor, que retirava o ar quente do cinema, para que o ventilador jogasse o ar frio. Ao pisarmos no segundo andar, o que mais nos chamou atenção foi a sacada e os pôsteres de dois astros de Hollywood: Gregori Peck e Tyrone Power. Visitamos os banheiros, testamos as cadeiras recuáveis e Prince deu sequência à conversa...

     “Vale ressaltar as mudanças no perfil da juventude ao longo dos anos. Quando passamos ‘O Exorcista’ pela primeira vez na década de 70, o público ficou aterrorizado. Ao reprisá-lo vinte anos depois, ouviram-se gargalhadas. Outro fato ocorreu em ‘Dio Como Te Amo’, no final, o mocinho ia embora de avião e a mocinha não conseguia alcançá-lo. Então, ela pegava o microfone e começava a cantar. O pessoal chorava de emoção. Anos depois, vaiaram a cena. Agora vocês me esperem aqui pois tenho um presente para o jornal”,  ao dizer isso, o entrevistado desapareceu na escuridão...

       A curiosidade, ansiedade e expectativa invadiram nosso pensamento. De repente, enxergamos um clarão e uma porta rangeu. Estávamos convidados para conhecer a sala de projeção. Subimos correndo e entramos. Uau! Os dois projetores estavam lá! Atentos, entendemos seu processo de funcionamento...foi o auge da matéria. Confira mais curiosidades...

      “Ao início de cada sessão, soltávamos o prefixo. Aquela famosa música-ambiente que recordamos com saudade. Utilizamos durante anos: ‘Love Is A Many Splendored Thing’ – O Amor é uma Coisa muito Espelendorosa (S. Fain\P. Webster). Mais tarde ela foi substituída por ‘Noturno’. Eram exibidos trailers e um jornal com notícias do Brasil e do mundo. Havia o filme Piano (a imagem não ocupava a tela toda) e os Cinemas Copi (a imagem cobria toda a tela)”, completou.  Chegou a hora da verdade! O instante que todos os leitores desta saga aguardavam...Perguntamos sem rodeios: Por que o Cine Rio Branco fechou? 

       As cortinas se fecham 

      “O Cine Rio Branco fechou por falta de público. A partir da metade da década de 80, o movimento começou a cair por diversas razões como: televisão, barzinho, videocassete e automóvel. O expressivo aumento da frota de veículos proporcionou outras opções de lazer. No dia 20 de agosto de 1998 a empresa Prince de Souza fechou o cinema. Em 1999 ele foi tombado como Patrimônio Estadual. As lojas Pernambucanas chegaram a comprá-lo, mas depois desistiram. É evidente que nossa família tem um sentimento especial pelo cinema. Nas ruas, ouvimos a população dizer que é bonito, é histórico, falam em Centro Cultural...Mas ninguém se interessou. Ficou só na conversa. Não temos nenhuma expectativa para o futuro”, desabafou Sr. Fernando. 

        Para encerramos a matéria, pedimos as suas considerações finais. “Fui praticamente criado aqui. Assisti quase todos os filmes exibidos e pra mim, foi uma verdadeira escola. Por comodismo, hoje não vou mais ao cinema, prefiro ver em casa. Na minha opinião, ‘Ben Hur’ é o melhor filme de todos os tempos. Ele é completo pois engloba religiosidade, romance e batalhas, já o assisti 11 vezes. O segundo melhor é ‘Forrest Gump – O Contador de Histórias”. Isso não quer dizer que eu não goste de filmes atuais. Assisti ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘Harry Potter’ e aprovei. O segredo de um bom filme está na direção. O diretor é mais importante do que o ator. Enfim, creio que falta aos filmes de hoje mensagens positivas que sirvam em nossa vida”, concluiu. 

       Na época, fechei a matéria com alguns depoimentos de pessoas contando suas lembranças do Cine Rio Branco. Que tal você, que leu até aqui este texto, escrever um comentário com as suas recordações desse local que encantou gerações?

Confira imagens aéreas incríveis de Varginha



        Leia também: O Legado de Pe. Moacir

                                O ET e outras peculiaridades de Varginha 

                              





24 comentários:

Leandro Pio Ferreira disse...

Muito interessante a matéria

Matheus Pissolatti disse...

Opa, obrigado...

zane beatriz disse...

Matheus amei a matéria. Gostaria de ter tido a oportunidade de ler na ocasião em que foi feita.Sempre tive muita curiosidade em conhecer o Cine e nunca entrei lá. Acho um desperdício aquele espaço perdido no centro da cidade. Deve haver alguma forma de utilizar o local sem danificar o projeto tombado, será que não? Vamos pensar em algo? Quem sabe? Parabéns!

William Souza Ribeiro disse...

Parabéns pela matéria!

Matheus Pissolatti disse...

Olá Zane, pois é, faz quase dez anos que eu redigi, e agora resolvi compartilhar no meu blog....Obrigado pelo comentário e por ter lido...quem sabe no futuro aquele espaço pode ser melhor aproveitado....

Matheus Pissolatti disse...

Obrigado William

paulo Sergio Rosa Rosa disse...

Parabéns Matheus pela matéria!!lembro dos ótimos filmes e das vezes em que fui expulso pelo lanterninha!!! coisa de jovens na época!! saudades só o que tenho.

Matheus Pissolatti disse...

hahaa Paulo Sérgio, sempre o lanterninha garante histórias....obrigado por ter lido....

Unis Campus II disse...

Alguma novidade sobre o futuro do nosso Cine Rio Branco

Matheus Pissolatti disse...

Infelizmente ainda não...

Paulo Henrique belinelli disse...

Olá Matheus, muito boa sua matéria...desde sempre escrevendo muito bem, achei muito interessante sua insistência em conseguir uma matéria com o proprietário, e apesar de se passarem quase 10 anos da matéria, achei muito atualizado pois até hoje o futuro do Cine Rio branco está indefinido, e achei bem bacana a quantidade de filmes que eles exibiram e que marcaram a vida de muitas pessoas, não tive á oportunidade de assistir algum desses grandiosos num lugar tão êxplendido, mas foi bom conhecer um pouco mais, parabéns... e achei muito legal ele citar o filme Ben Hur com o melhor filme que ele exibiu, Muito Bom !

Matheus Pissolatti disse...

Aeee Paulinho, muito obrigado por prestigiar o meu trabalho, ainda mais você que é super entendedor de filmes...tinha certeza de que iria gostar...obrigado, eu ainda não assisti Ben Hur, tenho vontade de conferir...abraço

Celinha Silva disse...

Parabéns Matheus por trazer novamente a historia do Cine Rio Branco que faz parte da minha vida de jovem e que trouxe tantas alegrias, momentos com amigos e até união de um grande amor.Até hoje temos os folhetos dos filmes da época que guardamos com muito carinho e recordação.
Grande abraço.

Matheus Pissolatti disse...

Que alegria ao ler seu comentário Celinha...a intenção ao divulgar foi justamente essa....fazer aflorar as lembranças de quem viveu essa época de ouro...que bacana guardar esses folhetos...é uma linda recordação...abraço

Juliano Augusto disse...

Estive uma única vez no cine Rio Branco, foi em 1996 e assisti ao Independece Day, na área de cima, no mesanino...

Matheus Pissolatti disse...

Olha só Juliano....não sabia que vc tinha ido lá...bacana rapaz...obrigado por ter lido a matéria...abraço

Simone Silverio disse...

Matheus fiz uma viagem no túnel do tempo agora ao ler esta belíssima matéria.Me fez recordar minha juventude, por inúmeras vezes fui ao Cine.Que lembranças boas, literalmente naquela época eu era feliz e não sabia!!!!!Recordar é viver!!!Abraços!!!!

Matheus Pissolatti disse...

Recordar é viver mesmo viu...infelizmente não tive a oportunidade de pegar essa época mas pelo que vcs falam deve realmente ter sido maravilhoso mesmo...abraço

Julio Cesar Castro Prado disse...

Olá Matheus. Acho que poderiam deixar o cinema estilo ao teatro capitolio.... deixar um cine teatro Rio branco... Pois quando o capitolio estiver cheio, passe uma nova atração para o cinema Rio branco.

Matheus Pissolatti disse...

Olá Júlio César, obrigado por ter lido a matéria...pois é, uma boa sugestão...

Claudemir Marques disse...

Meu Deus que matéria mais linda!
O Cine Rio Branco fez parte da minha vida eu já assisti vários filmes la acompanhado da minha irmã e do meu irmão na época era a nossa segunda casa.
Era emocionante ver as cortinas se abrirem antes tocava uma musica linda e durante esta musica acontecia um espetáculo de luzes coloridas que acendiam e apagavam os quandro em formato de flores eram lindos eles também acompanhavam as luzes a minha preferida era a luz roxa que combinava com a escuro do cinema quando as cortinas se abriam era exibia aquela tela imensa o coração batia ate mais forte era um dos momentos mais especiais eu nunca irei esquecer
é muito triste ver que tudo isso acabou
Matheus, obrigado por me fazer lembrar de uma época boa de minha vida.

Matheus Pissolatti disse...

Olá Claudemir...puxa cara, que testemunho bonito o seu...até me emocionei...que época rica e próspera vc viveu no Cine...imagino que deva causar arrepios mesmo essas lembranças...obrigado por ter lido e por comentar...abraço

Eliane Rossignoli disse...

Parabens pela matéria amigo,tive a oportunidade de assistir belos filmes nesse local. Quanta saudade!

Matheus Pissolatti disse...

obrigado por ter lido Eliane, realmente deve ter sido uma época maravilhosa pra vcs...